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Farmácia Popular entra em nova fase com novas regras

Publicado em : 14/08/2026

Fonte : Panorama Farmacêutico -

Alexandre Padilha, Ministro da Saúde, anunciou as mudanças na abertura do Abrafarma Future Trends

Programa Farmácia Popular do Brasil entra em uma nova etapa, marcada por mudanças nas regras de participação das farmácias, fiscalização mais estruturada e uma discussão sobre a possibilidade de ampliar o papel dos estabelecimentos na assistência à saúde.

As novidades foram apresentadas pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, durante o Abrafarma Future Trends, e formalizadas pela Portaria GM/MS nº 12.091/2026, publicada pelo Ministério da Saúde nesta quarta-feira (12/08).

A nova portaria substitui o regulamento anterior e modifica regras de funcionamento e fiscalização do programa, além de estabelecer novos procedimentos para gestão de riscos, guarda de documentos, recursos administrativos e aplicação de penalidades.

Ao mesmo tempo, a regulamentação abre espaço para uma discussão de longo prazo sobre a ampliação do Farmácia Popular. A própria portaria prevê a possibilidade de criação de um Grupo de Trabalho para estudar a inclusão de serviços, procedimentos, exames diagnósticos, monitoramento terapêutico, telessaúde e novos modelos de atendimento.

É importante destacar, porém, que não há, neste momento, inclusão de novos medicamentos, exames ou serviços para o usuário do programa. O elenco de medicamentos e insumos permanece sem alteração imediata. Uma eventual ampliação dependerá das propostas do Grupo de Trabalho e de novos atos do Ministério da Saúde.

Padilha destaca papel das farmácias privadas

Durante o Abrafarma Future Trends, Padilha colocou o Farmácia Popular no centro da discussão sobre acesso à saúde e ressaltou a importância da participação da rede privada na expansão do programa.

“Foi isso que permitiu que o Farmácia Popular pudesse chegar em cada canto do país”, afirmou o ministro, ao destacar o papel das farmácias privadas na capilaridade alcançada pelo programa.

Segundo Padilha, a parceria com as farmácias privadas tornou o Farmácia Popular uma referência pela capacidade de levar medicamentos gratuitamente ou subsidiados a diferentes regiões brasileiras.

O ministro também apresentou a nova regulamentação como parte de uma agenda de modernização do programa. Entre os objetivos estão ampliar a presença do Farmácia Popular em municípios que ainda apresentam baixa cobertura e permitir novas adesões em localidades que já contam com estabelecimentos participantes.

A estratégia inclui ainda o aprimoramento dos mecanismos de monitoramento das farmácias credenciadas, com o uso de ferramentas de inteligência artificial.

O que muda nas regras para as farmácias

Entre as principais alterações está a renovação da participação dos estabelecimentos no programa. A regra anterior previa uma rotina anual, enquanto a nova regulamentação estabelece renovação a cada dois anos.

O prazo de guarda da documentação também foi reduzido de dez para cinco anos, preferencialmente em meio digital.

Outra mudança está relacionada às comunicações oficiais. O e-mail cadastrado pela farmácia passa a ser o canal oficial de comunicação com o programa.

As alterações cadastrais também passam a seguir prazos definidos: são 15 dias para mudanças relevantes 30 dias para as demais.

A nova regulamentação ainda estabelece um rito específico para recursos administrativos, com prazo de dez dias.

Fiscalização passa a considerar níveis de risco

Uma das mudanças mais relevantes está na adoção de uma lógica de monitoramento baseada em riscos. A nova regra prevê classificações de risco baixo, médio, alto e muito alto.

Para Guilherme Mesquita, CEO da Regulariza Farma e integrante da seção Os Especialistas, do Panorama Farmacêutico, a alteração representa uma mudança importante na condução do programa.  “Estamos diante de um movimento que busca conciliar três pontos fundamentais: ampliação do acesso da população, modernização tecnológica e maior inteligência no processo de fiscalização das farmácias credenciadas”, afirma.

Segundo Mesquita, durante muito tempo uma inconsistência ou indício de irregularidade poderia produzir consequências operacionais severas para o estabelecimento. A adoção de critérios baseados no nível de risco tende, na avaliação dele, a tornar o processo mais proporcional, diferenciando falhas operacionais passíveis de correção de situações efetivamente graves.

A mudança, entretanto, não representa flexibilização das responsabilidades das farmácias.  “Pelo contrário. A tendência é de uma fiscalização cada vez mais tecnológica, integrada e orientada por dados. Com a modernização do Sistema Autorizador de Vendas e a utilização crescente de ferramentas digitais e inteligência artificial, inconsistências poderão ser identificadas com maior velocidade e precisão”, afirma.

Multas podem chegar a 20%

A nova portaria também modifica o sistema de penalidades. As multas passam a ser classificadas em quatro níveis: leves, médias, graves e gravíssimas.

Os percentuais podem chegar a 2%, 5%, 10% e 20%, respectivamente.

A base de cálculo também muda. Dependendo da irregularidade, a multa poderá considerar o valor da operação irregular, o prejuízo causado ou potencial ao poder público ou, em determinadas situações, as vendas realizadas pela farmácia no programa nos 12 meses anteriores à decisão.

Antes, a multa máxima era de 10%, calculada, em regra, sobre as vendas dos três meses anteriores.

A nova regulamentação também altera a relação entre estabelecimentos de uma mesma pessoa jurídica. A extensão de uma penalidade para outras filiais deixa de ser automática e passa a exigir comprovação de envolvimento.

Prazo para reanalisar pagamentos é reduzido

As regras relacionadas à reanálise de divergências nos pagamentos também foram modificadas.

O prazo para solicitar a reanálise de divergências passa de 90 para 60 dias. A redução exige que as farmácias acompanhem com maior atenção os procedimentos relacionados aos pagamentos e eventuais divergências.

Com as novas regras, a organização documental e o acompanhamento permanente da regulamentação ganham ainda mais importância.

Para Mesquita, as exigências de compliance passam a ocupar uma posição central na gestão do programa.

“Por isso, a mensagem para o empresário farmacêutico é muito clara: o Farmácia Popular está entrando em uma nova etapa, na qual compliance, organização documental, treinamento da equipe e acompanhamento permanente das regras deixam definitivamente de ser diferenciais e passam a ser requisitos essenciais para permanecer no programa com segurança”, destaca Mesquita.

Governo quer discutir novos serviços de saúde

A mudança mais ampla projetada para o futuro do programa está relacionada à possibilidade de incorporar serviços farmacêuticos e outras formas de atendimento.

Padilha sinalizou, durante o Abrafarma Future Trends, uma agenda de modernização que aproveite a capilaridade do varejo farmacêutico para incorporar novos serviços de saúde.

Entre as possibilidades apresentadas estão novos modelos de acompanhamento de pacientes com doenças crônicas, vacinação, exames e ferramentas digitais. A proposta é utilizar a estrutura das farmácias como um ponto adicional de apoio à atenção primária.

O ministro defendeu que a construção dessas iniciativas seja feita em conjunto com representantes do varejo e da indústria. “Vamos construir juntos esse trabalho para que possamos ter novas soluções em saúde”, ressaltou.

A portaria, por sua vez, prevê que as propostas de ampliação poderão contemplar serviços, procedimentos, exames diagnósticos, monitoramento terapêutico, telessaúde e novos modelos de atendimento.

Por enquanto, contudo, trata-se de uma agenda de estudo. A eventual incorporação desses serviços dependerá das propostas elaboradas pelo Grupo de Trabalho e de novos atos do Ministério da Saúde.

Farmacêuticos defendem remuneração pelo cuidado

Conselho Federal de Farmácia (CFF) vê na nova regulamentação uma oportunidade para discutir uma mudança no modelo do programa.

O Conselho integra, desde 2025, o Comitê de Acompanhamento do Programa Farmácia Popular, espaço no qual poderá ser criado o Grupo de Trabalho responsável por estudar a ampliação e modernização da iniciativa.

A entidade pretende defender a inclusão de serviços farmacêuticos e a remuneração pelo cuidado prestado à população. “Essa é uma discussão que o CFF vem defendendo há anos. Queremos um Farmácia Popular que não se limite à entrega do medicamento, mas que também contribua para que o paciente alcance melhores resultados com o tratamento, por meio do acompanhamento do seu uso. Vamos trabalhar para que os serviços farmacêuticos sejam incorporados ao programa e adequadamente remunerados, reconhecendo o cuidado prestado pelo farmacêutico e ampliando a efetividade dessa importante política pública”, afirma Walter da Silva Jorge João, presidente do Conselho Federal de Farmácia.

Oportunidade vem acompanhada de novas responsabilidades

Para Guilherme Mesquita, a possível ampliação da atuação das farmácias representa uma evolução positiva, mas precisa ser acompanhada de planejamento e segurança para os estabelecimentos.

“Vejo essa evolução de forma positiva, mas ela precisa acontecer com planejamento, segurança jurídica, definição clara das responsabilidades e sustentabilidade econômica para os estabelecimentos participantes. Não podemos ampliar as atribuições das farmácias sem garantir condições técnicas, regulatórias e financeiras para que esses serviços sejam prestados adequadamente.”

A avaliação é que a discussão sobre teleatendimento, exames, testes rápidos e acompanhamento de pacientes sinaliza uma mudança na forma como o governo enxerga a estrutura das farmácias.

“Hoje ele é uma das principais portas de acesso da população brasileira ao tratamento de doenças crônicas e, ao mesmo tempo, tornou-se extremamente relevante para milhares de farmácias independentes e pequenas redes”, afirma Mesquita.

Nesse cenário, a nova regulamentação aponta para um Farmácia Popular mais digital, com fiscalização mais estruturada e potencialmente mais amplo.

Para as farmácias, a mudança combina oportunidades e novas responsabilidades. Para o usuário, a alteração mais importante ainda está no horizonte: a possibilidade de que, além de facilitar o acesso a medicamentos, o programa venha a incorporar novos serviços de cuidado em saúde.

Por enquanto, o que muda de forma imediata são as regras de funcionamento, credenciamento, fiscalização, documentação, recursos e penalidades. A discussão sobre novos serviços começa agora.

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